quinta-feira, março 17, 2011

Recicla-me


Naquele dia deixou-o algures, de vez e para sempre. Como um homem que quer caminhar sem pés. Deixou-o algures. Urgia descansar em paz, como na morte, só que sem morte nem chão.Ele ficou com todos os dons. Ela com a poesia de ter sido capaz de amar. Ele foi cruzar os mares, os vales tombados como livros na neblina das manhãs. Esgotou a vida como um vaso que se partiu em que se perderam. Ela não sabia mais o que viver, como atravessar para o lado da razão.Acordou ontem à noite num quarto de cidade, desconfortável, percebia-o, adormecido do outro lado do mundo. Como se agora pudesse apaziguar a distância e um calor que se dispersou. Em nenhures, naquele quarto, dorme do seu lado um corpo de homem com que se disfarça a solidão. Sem nome, sem história.O que se descreve agora são as circunstâncias e não aquilo que move homens.Não sabe dizer como, quando, porque houve a perda.Atravessar a história de uma vida pelos vastos corredores da alma, que é um templo vazio, e continuar sem razões, sem motivos.Acordar num prédio de cidade. Haver prédios, e àrvores e neblina e noite na janela e um alguém em algures a adormecer do outro lado do mundo, e sentir-lhe factos de vida e cicatrizes e circunstâncias.Mas de manhã acorda e só tem a maré de um corpo que envelhece e não sabe ao certo que voltas o mundo deu, nem para onde irá agora...
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