quinta-feira, março 26, 2009

Contos para adormecer.

Quando, a minha maninha, tinha 4 aninhos, deixou o quarto dos pais e passou a partilhar o quarto comigo.
Mas tinha tanto medo de dormir sozinha e no escuro, que para adormecer, eu estendia a minha mão para a caminha dela, dava-lhe a mão e contava-lhe histórias.
Todas as noites era uma diferente e sempre inventadas por mim, porque não queria as que já conhecia.
Foi assim que começou o meu gosto pela escrita. Continuei sempre a escrever, mas já há muito tempo, que não escrevia um conto infantil.
Mas ontem á noite dei por mim a inventar uma historia para o Tomás.

Vou deixa-la aqui, para que um dia mais tarde, o meu filho a possa ler e recordar.
Maninha, se leres isto, espero que também gostes desta e que te recordes dos tempos em que a mana te embalava :)


A ostra e a pérola


Num banco de ostras, num pequeno estuário, vivia uma ostra, de concha muito brilhante.
Esta ostra, vivia triste e só. Ao seu redor, viviam outras ostras, no entanto, a ostra não se dava com as suas vizinhas. Pois todas elas possuíam dentro das suas conchas, o tesouro mais precioso de uma ostra, a pérola.
A ostra era posta de parte pelas suas vizinhas, pois apesar de muito tentar, não conseguia gerar uma pérola dentro da sua concha. E paras as ostras essa é a missão fundamental das suas vidas. Sentia-se incompleta, e inútil.
O tempo foi passando, e a ostra foi vendo todas as outras ostras, produzirem pérolas. Via também que de tempos em tempos, vinha o pescador, colher as pérolas produzidas, sem que as ostras se preocupassem. Pois passados uns meses, essas ostras tinham novamente pérolas nas suas conchas.
A tristeza foi inundando a vida da ostra e cada vez mais se afastou das outras ostras. Já não suportava os olhares das ostras com pérolas.
Num inverno, frio e ventoso, o mar agitou-se. E fez entrar vagas de ondas fortíssimas, dentro do pequeno estuário. As ostras agitaram-se, o fundo do estuário revolveu-se. Os grãos de areia que forravam o fundo do estuário, soltaram-se e movimentavam-se ao ritmo das ondas.
As ostras fecharam as suas conchas para se protegerem da areia. Mas para a ostra brilhante, já era tarde. Um pequeno grão de areia, entrou dentro da sua concha.
A tempestade passou e o pequeno estuário acalmou. Todas as ostras voltaram a abrir as suas conchas, excepto a ostra brilhante. Pois sentia dentro de si, um grãozinho, que lhe provocava uma espécie de cócegas. Gostava da sensação, e teve medo que ao abrir a concha, o grão se soltasse.
Durante bastante tempo, a ostra manteve a sua concha fechada, e no seu interior, brincava com o grãozinho. Acariciava-o e alisava-lhe as faces, enfeitando-o com o material com que construía sua concha.
Sentia que o grãozinho de areia, ia ficando maior e mais redondinho. A ostra habituou-se a ter o grãozinho consigo, e dedicava-lhe todo o amor e carinho que tinha para dar. Sentia-se feliz e já nem pensava, nas outras ostras e nas suas pérolas.
Chegou o tempo da colheita das pérolas, e como de costume, o pescador, veio inspeccionar as ostras. Remexeu em todas e apanhou as pérolas das outras ostras. Quando foi ver a ostra brilhante, tocou-lhe na sua concha, para que esta se abrisse e ele pudesse ver o seu interior.
A ostra abriu a sua concha despreocupada, pois sabia que não tinha pérola para mostrar. Mas já não estava triste, pois tinha o seu grão a fazer-lhe companhia.
Mas dentro da sua concha e com todo o cuidado que a ostra lhe dispensou, o pequeno grão de areia, estava agora transformado, numa pequena perolazinha brilhante.
A ostra nem podia acreditar. Estava pasmada, com a situação. Nunca lhe tinha passado pela cabeça, que era assim que as pérolas se formavam. Não podia estar mais orgulhosa.
O pescador ao ver aquela pérola, achou-a ainda muito pequena para ser colhida e por isso resolveu, deixa-la na ostra, para que ela se desenvolve-se.
E assim se passaram, mais uns meses. A ostra, vivia feliz com a sua perolazinha. Abrindo constantemente a sua concha, para orgulhosamente mostrar o seu tesouro mais precioso.
A pérola com os cuidados da sua ostra, foi crescendo cada vez mais redondinha, brilhante e bonita. Era sem dúvida a pérola mais bonita, do banco de ostras. A ostra não podia ser mais feliz.
Quando chegou de novo a época da colheita, a ostra abriu orgulhosamente a sua concha. Convencida que o pescador ao ver a perolazinha a acharia pequenina e a deixaria ficar, para que crescesse ainda mais.
Mas o pescador ao ver a pérola, achou-a tão perfeita, que a colheu e levou-a consigo.
O coraçãozinho da ostra partiu-se. Sem a sua pérola, sentia-se infeliz. E voltou a fechar a sua conchinha e a isolar-se das outras ostras. Pois achava, que sem a sua pérola, já não teria valor.
O pescador, levou a pérola a um ourives, para a vender. Pois estava convencido que era tão perfeita, que lhe ia render, um bom valor.
O ourives, assim que viu a pérola, achou-a perfeita, para o pendente que estava a fazer para a princesa.
No dia do aniversário, da princesinha, os seus pais, os reis, ofereceram-lhe um fio, de onde pendia a perolazinha. Era a prenda perfeita.
A princesa cresceu, sem nunca ter tirado o fio. Quando chegou á idade de casar, embarcou num navio, para navegar até ao reino onde vivia o príncipe com quem iria casar.
A princesa, era afoita e gostava de se debruçar no navio para ver o mar. Numa dessas vezes, o seu fio, ficou preso, numa farpa do casco do navio, e partiu-se, caindo ao mar.
De nada valeu, á princesa, ficar a olhar, pois de imediato, as ondas o levaram.
A pequena pérola soltou-se do fio e continuou a ser arrastada pelas ondas. Até que um dia, chegou, de novo ao estuário onde nascera. Perguntou a todas as ostras que encontrou, pela sua mãe ostra. Mas poucas sabiam de quem a pérola falava.
Continuou, a procurar a sua ostra, até que a encontrou, bem fechadinha, coberta pelos limos.
Chamou, pelo seu nome e afastou-lhe os limos.
A ostra ao ouvir a sua pequenina, agitou-se na sua conchinha e devagarinho, com medo de estar a sonhar, foi abrindo a sua concha, para confirmar que era a sua pérola quem a chamava.
Ao ver de novo o seu tesouro, a ostra brilhou novamente de alegria.
A pérola fez-se rebolar, para o aconchego da concha da sua mãe.
Estavam de novo reunidas, ostra e pérola. Novamente, voltou a ostra a acariciar a pérola, o seu pequeno tesouro.
A pérola contou á ostra, as suas aventuras desde que foi levada pelo pescador.
A ostra contou á pérola, as saudades que tinha de a ter consigo.
Assim, de novo, reunidas, ostra e pérola, eram felizes. E perceberam, o quanto eram importantes uma para a outra.
A ostra percebeu finalmente, que a sua missão, era criar a sua pérola, mas também ensiná-la a ser livre. Para que quando chegasse a altura, a pequena pérola pudesse viver as suas aventuras.
A pérola, cresceu ainda mais linda e confiante. Pois sabia, que por mais aventuras que vivesse, podia sempre regressar á conchinha da sua mãe. Onde poderia sempre descansar, das suas aventuras e receber todos os seus cuidados.
Ostra e pérola, eram finalmente felizes, pois ambas perceberam, o quanto eram amadas.

Fim


Para o meu filho T., a minha pérola pequenina.
26/03/09
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